segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Jonas: O Começo (As Lendas de Sirdan, n. 2)

"Levanta-te como meu Grão-Espião, bravo Interpelador, e que tua coragem continue a servir sempre a mim e ao Império de Sirdan."

Jonas abriu os olhos ao som de uma salva de palmas que incandesceu todo o Grande Salão Imperial. De frente para ele, em pé, estava o Imperador, fitando-lhe com olhos tão azuis quanto o Mar Leuceu. À direita do soberano, a Princesa, radiante com seus cachos ruivos, sorria em meio a lábios rosados. O novo Grão-Espião ergueu-se, ensaiou uma reverência ao monarca e então retornou ao público da cerimônia e a seu posto habitual na Guarda — onde abraços de seus companheiros aguardavam-lhe. De longe, olhos negros o observavam com invejosa meticulosidade; aquele era um mau dia para o Alto General das Forças Imperiais, braço direito do Imperador.  

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Nascer

Do alto dos montes de sua terra natal, o Andarilho observava. Diversas e inúmeras eram suas andanças; ali, todavia, naquele mesmo ponto, conduzia-lhe Hallak, o Grande Destino. Assim, de onde estava, enxergava a imensidão do Mar Leuceu; a ele recostado estava a singela cidade de Lianea. Há pouco amanhecera e, portanto, não se via movimento de seus conterrâneos. Apenas as chaminés das pequenas casas estavam ativas, despejando trilhas de fumaça nos céus — como uma tímida oferenda ao cálido Sol daquela manhã. O sopro do vento meridional satisfazia ao homem. Afinal, dias mais quentes estavam por vir — e disso ele tinha certeza.

Rodeava os pés do Andarilho uma vasta floresta de pinheiros. As árvores ainda salpicavam-se de tufos de neve. Também, elas circundavam os limites da cidade e, dali, se estendiam país adentro. Quilômetros do mais vasto ecossistema já disponibilizado pela Grande Mãe: tal era a topografia de Sirdan. O Andarilho e o onipresente verde, somado ao sutil branco, eram, decerto, amigos. A atenção do velho sirdanês — no entanto — não se concentrava em seus fiéis companheiros. Sequer os alegres rodopios aéreos das águias eram dignos de seu estudo. De pé, o homem repousava seu olhar treinado para bem longe dali.

domingo, 22 de março de 2015

Jonas, o Interpelador (As Lendas de Sirdan, n. 1)

"Amigo, vem. Senta-te também. Hoje, pois, conto, e reconto, a vida daquele que um dia passeou em meio a nós, sirdaneses. Ouviste falar de Jonas? O Interpelador há de viver outra vez só para que pudesse responder à realidade das palavras minhas..."

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Sobre Sonhos

Tudo o que ele esperava era uma carta de boa-noite. Almejava tão-somente uma mensagem de carinho escrita pelos dedos dela. Rememoraria, de tal forma, o perfume liliáceo de sua amada e reinventaria, com isso, o conceito do amor. Pensou melhor - e, logo, chegou à derradeira conclusão. Naquela morna noite de incontáveis estrelas, o que ele mais gostaria era de encontrar os olhos dela e de sua boca beijar. Já não tinha para si os motivos que o levaram a se esquecer dos lábios de sua querida. Lembrou-se, então, repentinamente, de como eles eram sedosos e naturalmente rosados; ou de como - com a mais sincera das alegrias - sorriam sorrisos cuja graciosidade abrandava tempestades quaisquer.

Foi envolto em tal nuvem de pensamentos que o Navegante das Falésias recostou-se ao tronco de um velho carvalho. Sua face fitava - sem realmente ver - o negrume que resplandecia aos céus. Enquanto isso, sua mente velejava para longe, aos mares das notícias amorosas. O pobre marinheiro imaginou se a jovem dos cabelos dourados nele pensava - onde quer que ela estivesse. O sirdanês tentou, também, constatar se a miraslaviana um dia amou-o como ele ainda a amava: uma dúvida irresoluta. Tal é a natureza dos mais puros sentimentos. 

Saudoso, ele desejava - dos porões de seu coração endurecido - que a alma da Princesa fosse protegida. O timoneiro decidiu, então, que a Grande Mãe certamente não permitiria nada além da felicidade plena como guia da doce Julia. Com isso, ele determinou-se a não dormir; afinal, saborearia - por todo o restante da madrugada - o retorno daquelas memórias outrora em brumas. Entretanto, ele bem sabia que as raízes do carvalho sirdanês abrem a mente dos homens aos sonhos. O Navegante, portanto, cerrou lentamente os olhos - e sonhou.

sábado, 5 de outubro de 2013

Julia (VIII) - parte 3

Um sorriso de malícia veio então aos lábios do grande bárbaro. Ao mesmo tempo, a visão do passado parecia derreter. Tudo estremecia à mente do sirdanês até apagar por completo. A criança dos olhos de luto estava, enfim, morta... 


O Navegante das Falésias abraçou com força a pequena miraslaviana falecida. Jamais entenderia o quão cedo a morte visita os homens, pensou. Lágrimas umedeciam os ombros da garotinha. Embora ela houvesse corrido jovem aos braços dos deuses, o sirdanês agradecia-a eternamente por cooperar com a verdade dos recentes episódios. A vontade do triste timoneiro era agora única: enrolar-se em seu manto encardido e ali ficar até que os vermes decompusessem a aflição de seu cadáver. Entretanto, os últimos raios frouxos do Sol crepuscular furaram a cobertura de nuvens e iluminaram seu corpo arcado.

Assim, o Navegante ergueu o olhar e viu uma Princesa espectral invocando-o ao castelo. Toda a mente do homem esvaziou-se para dar lugar a uma quase esquecida centelha de esperança. Tentando ignorar ao máximo o sofrimento à sua volta, o capitão correu o mais rápido que pôde para o Oeste da cidade inabitada. Horas, ou dias, antes, Gulsandor havia trilhado aquele caminho; era de se esperar que o pior, tão-somente, teria acontecido. De fato: no lugar do estábulo real, havia uma indefinição de cinza. Exatamente o que os olhos da menina previra. Cavaleiros jaziam ao chão de sangue sem suas armas por perto - uma morte penosamente indigna. O terraço central, por sua vez, estava reduzido a ruínas. O Navegante esperava que ao menos as flores pudessem acalentar seu espírito. No entanto, nem mesmo o formoso jardim real resistira ao ataque.

O portão do enorme castelo estava escancarado. A noite começava a cair na cidade cingida pelo fogo. Era o nascer da Lua minguante, então, o que trazia as péssimas notícias. Passando por toda a desgraça real, o sirdanês encontrou força no desespero de suas pernas apenas para subir as escadas que conduziam aos aposentos de sua amada. O rosto de Julia, pensou, parecia se esvanecer de todo em suas lembranças. Ele, contudo, não poderia deixar isso acontecer. O Navegante sentiu, então, que toda a fortificação estava também completamente abandonada. O único som a ser ouvido era o eco de suas botas na fria pedra. O ambiente, fracamente iluminado, era cada vez mais tenebroso até o destino - constatou o pobre homem. O labirinto de quartos só não estava mais desolado do que o seu próprio pensar.

Qualquer faísca de bons sentimentos foi rapidamente apagada à visão do quarto revirado da delicada miraslaviana dos cabelos dourados. Os móveis estavam tombados ao chão; as cortinas, rasgadas; o vestuário, desaparecido. O grande espelho, inclusive, estava trincado. Muitas folhas de papel pisoteadas aderiam-se ao chão ou - senão - eram levadas pelo vento provindo das janelas entreabertas. Os olhos treinados do marinheiro vasculharam o aposento até pousarem num pequeno objeto próximo a seus pés. Ele verteu mais lágrimas de pesar ao perceber que tinha em mãos o pente de Julia. Alguns fios de cabelo ainda emaranhavam-se nos dentes do utensílio. O fato fez os lábios do amante dobrarem-se em um tímido sorriso. Teria ao menos uma lembrança física da Miraslávia, pensou.

Em seguida - sem mais raciocinar - ele aconchegou o pente em um dos bolsos de seu manto sórdido. Seus dedos, assim, tocaram a pequena boneca de trapo que lá repousava. Recordando-se das memórias há pouco vistas, o sirdanês tratou de ir à varanda do quarto. Fazendo isso, poderia - daquela posição privilegiada - contemplar a destruição da cidade. Além disso, se serviria de um momento para, talvez, absorver tudo o que sentiu nas últimas horas.

Apertando - com suavidade - a bonequinha nas mãos, o timoneiro debruçou os braços no parapeito de ferro do alpendre. O que primeiro seus olhos chorosos logo viram foi o céu. A Lua ia alta no firmamento; seu formato em lembrança de um alvo sorriso perdido na vasta negritude. O que era, afinal, da Princesa Julia da Miraslávia? Algo mais, todavia, chamaria a atenção dos poetas que um dia já conheceram o amor. Era uma noite sem estrelas.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Julia (VIII) - parte 2

Em meio a lágrimas, o castanho dos olhos da menina revelada avermelhava-se. O olhar dela - cada vez mais profundo - parecia recontar com triste precisão suas memórias. A garotinha arrastava o capitão para si com o negro de suas pupilas dilatadas. E, assim, o marinheiro pôde ver além das barreiras do tempo...


Os olhos da miraslaviana solitária remontaram a alegria natural daquele povo numa bela manhã que resplandecia ao Sol. À muralha, soldados da torre jogavam baralho em celebração à troca de turnos da manhã. Na feira, as maçãs frescas enfeitiçavam compradores. Carne de raposa era estendida, prestes a servir um bom freguês. Risadas enchiam a atmosfera, vindas talvez da pequena taverna que abrira suas portas mais cedo. Enquanto um menestrel iluminava o coração das jovens com sua ágil flauta, um pobre garoto era roubado no beco mais próximo. Já uns meninos - à praça - tomavam para si o conhecimento dos empoeirados livros da grande biblioteca. 

À proteção do estábulo real, homens preparavam seus cavalos para viagem. As esposas acotovelavam-se à entrada, disputando o lugar para primeiro beijarem seus amores. Um sentinela do castelo agradecia por enfim se ver livre da longa noite insone e se despedia de seu companheiro de vigia. Criados preparavam o desjejum - cantarolando alegres cantigas do campo. Ao salão do trono, o Rei, em seu tédio, discutia motivadoras questões diplomáticas com seu Grão-Conselheiro. O Príncipe - numa das muitas varandas do castelo - praticava seu alaúde, provavelmente com intenções de cortejar uma das filhas do Barão de Montiguano.

Julia, sozinha, em seu quarto. A Princesa vestia um vestido simples verde - mais claro que o brilho de sua íris. Ela penteava seus longos cabelos dourados - que não eram nem loiros, nem castanhos. Seu grande espelho emoldurado com madeira de mogno refletia um campo de trigo maduro iluminado pelo Sol. A jovem assoviava uma canção do mar aprendida há pouco tempo, no Luzes dos Ancestrais. Ela tentava, também, decidir se deveria trançar os fios ou meramente alisá-los. Afinal, lembrou, fazia mais de um ano que não mandava apará-los e, agora, os cabelos passavam-lhe da cintura.

O pensamento de Julia foi interrompido com um pulsar da imagem que o Navegante via através dos olhinhos amargurados. O homem do mar teve sua mente transportada para o alto da grande cidade. Acompanhando tal movimento, as memórias - bem como toda aquela alegria - enevoaram-se. Foi então que uma flecha em chamas rompeu a calmaria das brumas para atingir o telhado de palha do estábulo. Com isso, o local fora rapidamente reduzido a uma grande fogueira, e os cavalos, assustados, fugiram - atropelando qualquer obstáculo à frente.

À medida que pessoas e guardas reais eram atraídos ao fogo e a fumaça escura ganhava altitude, mais flechas caíam do céu. Em um primeiro momento, uma ou duas delas furavam o chão duro da cidade ou causavam uma pequena comoção. Depois, saraivadas de fogo pegaram de surpresa a população - envolvendo os miraslavianos nos lençóis do pavor.

Assim, à luz do desconhecido, a cidade fora engolfada em chamas. Muitas casas já caíam ao chão - reduzidas a destroços em brasa. Cada vez mais corpos carbonizados eram espalhados por toda a cidade. Mães desesperadas choravam a perda de seus filhos, ou vasculhavam os quatro cantos de seu restrito mundo à procura de suas crianças. Cavaleiros agrupavam-se ao mando da Família Real quando um brado de guerra - ouvido por toda a Miraslávia - penetrou a fumaça de fuligem. Até mesmo os ancestrais do Lago despertaram de seu sono transcendental. Temendo o pior, o fantasmagórico Rei Mirus tratou de rapidamente empunhar sua espada etérea.

Não havia mais soldados vivos às torres da muralha para assistir à segunda parte de um ataque minuciosamente planejado. Chegando aos muros, bárbaros das montanhas escalavam-nos como formigas. Outros deles derrubavam os portões a leste e a norte, abrindo espaço para a entrada de hordas intermináveis de guerreiros. Seus machados de lâmina dupla dilaceravam o que viam pela frente - fosse vivo ou não. Largos eram seus escudos redondos. Além dos machados, infinitas eram suas armas - desde lanças ao terror. Cobrindo o corpo, os bárbaros encapuzados traziam grossos casacos de pelo escurecidos de sangue.

Da confusão de gritos, mortes, chamas, exaspero e ira, um dos inimigos destacou-se. Era ele mais alto que todos e, também, mais robusto. Seus passos seguiam violentos, porém graciosos e experientes. De vestimenta, bastavam para o homem calças e botas. Sua pele morena era adornada de inúmeras cicatrizes opacas. Tatuagens tribais desenhavam toda sua caixa torácica e costas. As mãos que empunhavam uma espada bastante larga e longa também eram desenhadas - bem como os braços amplos. Já seus cabelos negros, presos em um rabo, chicoteavam o ar. A expressão refletida nos olhos castanhos do bárbaro era de um contentamento singular, misturado à perversão única do gelo das montanhas. Os camponeses estremeciam ao seu nome: Gulsandor, o Grande Urso.

Chegando na praça central, o homem acertou um golpe ao alto da cabeça de um morador qualquer que lá estava - espalhando mais sangue em suas botas. Um chute seu jogou longe o corpo inerte, afastando-o de seu caminho. Após a demonstração de força, o Navegante - através do espelho das memórias - sentiu o olhar de Gulsandor mirar o Oeste. O que ele via, provavelmente, era o imponente castelo que ao alto se erguia.

Um sorriso de malícia veio então aos lábios do grande bárbaro. Ao mesmo tempo, a visão do passado parecia derreter. Tudo estremecia à mente do sirdanês até apagar por completo. A criança dos olhos de luto estava, enfim, morta. 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Julia (VIII) - parte 1

A quilha do "Águia do Norte" cortava as ondas aos cristais do Leuceu. Uma vez mais - tanto tempo depois - a embarcação aconchegava-se à sombra das grandes falésias da Miraslávia. O capitão, distraído com a chuva torrencial de junho, ordenou o recolhimento das velas. Os remos começaram a cortar as águas, enquanto o odor de algas atingia as narinas do Navegante - poluindo-lhe em parte a boa vontade. Percebia-se estar a areia, compactada, pontilhada dos seres verde-escuros. Tempestades incessantes haviam drenado a formosidade daquele memorável litoral, pensou o timoneiro. O pingar diminuto das nuvens parecia-lhe questionar - com toda o atrevimento da Natureza - os motivos do regresso.

Debruçado na amurada a bombordo, o Navegante sentiu-se preencher de uma estranha aflição. Seus olhos perscrutavam todo o litoral, em busca de qualquer movimento por parte dos miraslavianos. Estavam eles, todavia, lá sozinhos. Ou quase sozinhos - visto que algo mais chamou a atenção do sirdanês. Incrédulo, o timoneiro constatou que uma jovem esperava-os. Era ela aos pés do paredão escarpado, esvoaçando suas saias róseas à areia cinzenta. Julia sorria-lhe, como sempre; sua voz adocicada preenchendo o pensar do pobre homem. Ele, por sua vez, tratou de pedir para o marujo ao mastro uma confirmação do que via. Afinal, ser ele iludido por sua própria mente havia se tornado quase um hábito nos últimos tempos. Algo bastante incômodo, agora percebia.

Quando o marujo desmentiu sua visão, o capitão sentiu a força esvair-se de suas pernas. Então nada ali havia, senão a chegada de alguns forasteiros liderados por um marinheiro apaixonado. Naquele momento, os intrusos beiravam a areia, e cinco homens adentraram a água para que a embarcação fosse ancorada. O "Águia do Norte" enfim se fez livre da dura jornada que arrastara suas madeiras toda aquela distância. Tendo descido do barco, o Navegante, sem pestanejar, prendeu a bainha de sua cimitarra às costas e correu falésia acima. De lá, sua ansiosidade mostrou-lhe o que homem algum gostaria de ver. Ao longe, sobressaindo-se ao mau tempo, toda a cidade era fumaça. O arauto de uma decisão ousada fora o fogo que transformava as casas miraslavianas em brasa.

A visão de Julia - presa à mente do timoneiro - desmoronava com o desespero que preenchia aquela alma insegura. O marinheiro limitou-se a chamar seus compatriotas com um assobio apressado. Em seguida, correu o mais rápido que pôde em direção aos grandes portões da cidade - ou o que deles restava. O campo girava aos seus pés, em convulsão provocada pelo farfalhar dos arbustos. A face do Rei penetrava a cabeça do Navegante. O Príncipe lançava-lhe olhares furiosos, bem como o fantasma do grão-conselheiro. Em sobreposição a eles, havia a infame lontra loura - cujas risadas drenavam toda a esperança do sirdanês.

Ao chegar à cidade, o velho capitão, lasso, apoiou-se nos escombros dos portões. O crepúsculo atingia as montanhas enquanto a chuva diminuía até cessar. A palpitação do marinheiro misturava-se à leve névoa de fuligem que encobria a região. Por alguns minutos, qualquer tipo de estímulo parecia vulgar àqueles olhos que recusavam ver além dos paralelepípedos manchados de cinza. Eis que, ao longe, um leve pranto fazia-se ouvir. O Navegante então ergueu o olhar atento e enfim se deparou com o mais vivo dos pesadelos. Tudo era tristeza. De onde estava até a base do castelo, muitas das construções não mais existiam. A capital da Miraslávia - outrora bela - estava reduzida a uma confusão de materiais em brasa e corpos ensanguentados.

O sirdanês caminhou na direção dos destroços de onde presumia vir o choro, vinte metros adiante. No caminho, sentiu suas botas pisarem algo macio. Esparramada ao chão da rua principal estava uma boneca de trapo encardida, cujos olhos de botão imploravam por companhia. O vermelho de sangue coagulado adornava o vestidinho da diminuta figura. O homem acolheu-a nas mãos e tratou de retirar a poeira de seus negros cabelos entrançados. À visão daquele brinquedo - que cabia inteiro em seu palmo - o Navegante pôde tão-somente verter uma lágrima em consideração ao acontecido. Ali permaneceu no silêncio da alma, até que ouviu aumentar o pranto. À sua direita, florescendo das ruínas de uma casa, viu então uma mão infante macérrima. O antebraço oculto abanava o ar em desespero, como para se livrar do claustro.

O timoneiro aconchegou a boneca no bolso de seu manto para poder colher a criança que via. A criatura soterrada, agora libertada, foi colocada no chão úmido. Seus olhos iam baixos, entretanto, quando o Navegante ajoelhou-se à sua altura, as estrelas foram alinhadas. O sirdanês - como num relance - mergulhou no fogo que antes cortara o coração da Miraslávia. Em meio a lágrimas, o castanho dos olhos da menina revelada avermelhava-se. O olhar dela - cada vez mais profundo - parecia recontar com triste precisão suas memórias. A garotinha arrastava o capitão para si com o negro de suas pupilas dilatadas. E, assim, o marinheiro pôde ver além das barreiras do tempo.

sábado, 20 de julho de 2013

Julia (VII)

O tímido Sol finalmente apareceu em meio às esparsas nuvens. O "Águia do Norte" sacolejava com afinco no transitar das ondas, nauseando sua tripulação. O céu enfim ratificava um descanso aos sirdaneses, após desgastantes horas de trabalho intenso ao convés naquele primeiro mês de viagem. Seu capitão vasculhava os ares e revia o astrolábio - preocupado. A tempestade do Leuceu havia afastado-os numa abertura de cinco graus para o Leste, em relação ao arco habitual rumo Sirdan. Isso implicaria a perda de alguns dias para reparo da viagem, já que o vento levara a embarcação muitas milhas adiante no novo caminho. Ademais, o timoneiro calculava estar o "Águia do Norte" próximo da área de influência dos piratas de Ogar. Um encontro bastava para ser abatida a ave - como lembravam-lhe as lendas dos mares.

Os olhos de seu imediato, o qual tinha as costas apoiadas na figura de proa, jorravam consternação. Anos de experiência indicavam ao Navegante que suas mentes estavam em ressonância, e que, assim, ambos reconheciam o perigo de ali estarem. Tal situação fez com que o pobre sirdanês recordasse por um momento os episódios trilhados com seu antigo amigo. Sua mente retomou, logo, a feita em que os meninos haviam se encontrado pela primeira vez.

Fora numa expedição às Montanhas, uma das primeiras viagens militares do jovem Navegante. Ele passava por corredores de casas de uma das vilas saqueadas, quando avistara - às sombras de um beco - uma pequena figura encolhida em seus cobertores. Aparentava ter uns dez anos a menos do que o marinheiro, mas a sabedoria de um ancião. Os cabelos escuros do menino não correram; pelo contrário, ele ali ficara, cabisbaixo em seu tremor. O capitão do "Águia do Norte", complacente, então ajoelhara na neve fria - colocando seu manto quente sobre os ombros arqueados do jovem. Naquele momento, entendera: não havia família para salvar o pequeno de suas gélidas mágoas. O destino, portanto, convidava a se juntarem a juventude daquele homem e a inocência daquela criança. Assim fora; os amigos agradeciam eternamente, com sorrisos e abraços sinceros.

Lembrou-se o timoneiro também das viagens por todos os mares da Grande Mãe. Com o auxílio do marujo imediato, o "Águia do Norte" podia adentrar quaisquer águas sem que os ventos abalassem seu casco. Já a liderança do Navegante - tão notável quanto a de qualquer outro membro daquela tripulação - guiava os homens como um sextante, levando-os para onde fosse. Recordara-se o marinheiro, então, de todo o perigo por que passara junto àquela criança receosa - agora um corajoso lobo do mar de músculos proeminentes.

Haviam eles, há poucos anos, obtido a façanha de atravessar as tempestades do Mar de Talus - sem escolta alguma. Sobreviveram, ademais, para contar e recontar o encontro com os dragões do Leste. Saquearam, também, cidades das Ilhas - arrebatando-lhes todo o brilho da prata. Enamoraram-se com senhoritas da União do Norte, em desafio a qualquer galanteador. Tais pensamentos conduziam para longe dos problemas a mente do Navegante, cujos olhos castanhos foram visitados por lágrimas de satisfação.

Uma constatação então pululara em sua mente, enquanto enxugava o rosto com as mangas de seu manto encardido. O sirdanês acabou por se impressionar com o poder das lembranças. Afinal, agora tinha a certeza de que cada memória sua furtava-lhe uma parte do coração. Parecia-lhe que uma fração de si prendia-se sob o jugo de cada episódio vivido. Pouco a pouco, o Navegante era consumido por sua própria vida, na medida em que a única maneira de perdurar o efêmero era através de sua imaginação já nublada.

Havia, agora, os olhos verdes de Julia. A Princesa e a Miraslávia haviam proporcionado ao timoneiro imensurável enlevo no decorrer de semanas, meses ou anos - já não sabia. Mesmo assim, o marinheiro descera a interminável escadaria do farol. Com isso, condenara ao território das memórias a vívida temporada miraslaviana. Suas pernas desfaleceram com a decisão: não permitiria que tamanha desonra preenchesse eternamente seu raciocínio. De modo repentino, veio ao Navegante a convicção de que os miraslavianos não teriam o pouco que restava de seu coração. Raptaria Julia se necessário fosse. Passaria por qualquer Guarda Real, derrubaria qualquer portão, enfrentaria qualquer diplomacia. Estava decidido.

Seus planos foram então interrompidos por um anúncio do marujo ao mastro. Estavam a uma légua da Ilha da Piniceia Menor - território insular de formato arredondado, com duas milhas de diâmetro. Seu posicionamento servia como uma das referências às embarcações que viajavam pelo Mar Leuceu, fato que abrandou a aflição do Navegante. O capitão verificou a flâmula e logo notou que o vento soprava de Norte - amurando-os por bombordo. Se os sirdaneses orçassem o "Águia do Norte", de modo a contornar a ilha, rumariam ao seu país natal. Caso contrário, arribando o navio, poderiam fixar rota de volta para a Miraslávia.

Um retorno significaria fornecer cerca de pelo menos dois meses a mais àquela viagem, pensou o timoneiro. Ele colocaria em risco a integridade de sua pátria - em troca de prosas duradouras com a graciosidade de sua eterna amada. Ainda pensando nisso, e sentindo a ansiosidade nos olhos da tripulação, demandou que as velas fossem aplainadas. Em seguida, com o leme, fez o "Águia do Norte" descrever um arco a sotavento - virando-o em roda.

A face do Navegante contorcia-se com a surpresa de seus subordinados. Sentia que seu imediato fitava-o. O receio de seu amigo não havia de todo se afrouxado, sabia. Trataram os homens do mar de seguir os passos do ilógico e de, portanto, retornar. Esperava o timoneiro que ao menos o Grande Astro não condenasse sua decisão, ausentando-se da viagem ousada. Os longos cabelos dourados de Julia seriam uma vez mais contemplados. E o Navegante, bobo, sorriu.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Julia (VI)

— Amigo - o apreço é imenso. Quais são as boas novas? Ou serão elas más?
— Companheiro - há céu mais obscuro? O crepúsculo, as densas nuvens - tudo me assombra. Pudera os ventos cálidos acalentarem meu pensar.
— Admiro-lhe a observação, meu caro. Sente-se; desfrute da bebida. Hoje é por conta da casa.
— Imensamente grato. Estou certo de que cá nossa cevada me é de grande utilidade. Tais são as noites escuras por que rumo...
— Ressoa o que em seu pensar? Conte-me, homem. Serão os longínquos tempos - imemoriáveis? Parece-me que o Mar Leuceu invade o Setentrião uma vez mais, roubando-lhe a paz.
— Imemoriáveis? Oh, temo que não! Sinto ainda a jovem Princesa tocar-me com sua alegria sedosa, enrubescer-me as faces com o verde de seus olhos. Suas lembranças acompanham-me há muito, muito. Sei mal quanto tempo passou - seriam dez, vinte, trinta anos? Não sei; tudo o que compreendo é o espaço que já nos separa - um destino sinuoso.
— Jamais você narrou-me dias outros na Miraslávia. Temos toda uma noite, ou mesmo dias a fio, amigo. São essas suas boas, ou más, novas? Creio não só a bebida fazer-lhe bem; é também uma prosa.
— Sim, claro - sim. As árduas noites passo ao som do piar das águias. Veja - um navio e eterno acompanhante das memórias de um marinheiro distraído... Contudo, é me bem vindo contar-lhe a história. Sempre, sempre.
—  Sei bem que os amantes compartilharam da torta de maçãs. O que foi então feito do Lago Mirus?
— Oh, suas águas cristalinas brotam constantemente de meus olhos. Mais uma vez as normas de um reino venceram-me, diria, naquela ocasião. Dormitamos ao relento; Julia logo retornou aos aposentos. Disse-me ela que suas damas eram imperdoáveis, e que, tecnicamente, toda a Miraslávia exigiria cobranças de sua parte caso ocres línguas espalhassem contos.
— Entendo - imagino que cá o mesmo aconteça com a Família Real. É dos bons mexericos que vivem os nobres, arrisco dizer. Os Homens não medem suas palavras.
— Embora problemas viessem à tona, continuamos nossos encontros. A Princesa estava cada vez mais formosa; eu, mais apaixonado. Encontramo-nos quase todos os dias - fosse pelo alvorecer, fosse pela tarde. Senti-me afortunado, com toda a certeza, meu caro! Era nos separarmos, e crepitava em minhas entranhas a saudade de seus cabelos.
— E o trabalho seu? A receptividade do Rei continuou tal como foi ao primeiro dia? Os miraslavianos houveram de agradecer - fora aquela uma das poucas frotas comerciais rumo aquelas bandas.
— Miraslavianos... Soaram todos muito animados naquelas terras. Os produtos de Sirdan foram mais do que bem-vindos. Não via que poderia uma Nação tão grande viver de seu próprio sustento, inserida na ampla Natureza que nos cerca a todos. O Rei foi um homem bom.
— Pois, então, por semanas, meses encontraram-se os dois. Doce Miraslávia!
— O tempo de minha permanência já não consigo precisar com exatidão de marinheiro. O que afirmo: depois foi - tão-somente - depois. Os laços da felicidade atavam-nos um ao outro. Juntos aprisionávamos o tempo numa redoma, ignorando em plena consciência sua existência. O coração bate-me forte ao som das memórias de Julia; aprazível viagem fora aquela.
— Amigo meu, soa exasperado. Os anjos roubaram o enlevo dos amantes? Pois os deuses em constância se fazem traidores da vontade humana, arrebatando-lhes os planos.
— Hei de concordar, companheiro. Deveras arruinado fez-se o restante dos dias. Foi cúmplice não o Lago, não a taverna nem as falésias ou os montes da Miraslávia. A derrocada dos planos de um simplório amor entre mar e pedra concretizou-se numa alta torre.
— Assistem aos delírios dos mundos as elevadas construções. Ou assistem elas tais devaneios? Vejo a proximidade com o Alto Firmamento ir de encontro aos ideais humanos. O que aconteceu?
— Julia... Brota-me o pesar de tempos nunca vividos. Conto-lhe: subimos ao farol da grande cidade, o qual chamavam de Luzes dos Ancestrais. Inicialmente, nossa intenção fora admirar - quase às nuvens - a aurora miraslaviana. No entanto, chovia. Os céus fechavam-se a nossa aparente boa vontade. Assim sendo, sentamo-nos ao chão de pedra. Foi então que, mais uma vez, ouvi retumbar o deboche da lontra loura através dos tempos. O pranto dos espíritos antigos.
— Deixa-me sem palavras. Imagino que as barbas do Grande Rei enredaram seus sentimentos fortemente.
— Sim, sinto. Minha doce jovem lembrara-me a presença de um charmoso herdeiro do Leste, nos dias àquele anteriores. Suas palavras pisavam o pulsar de meu coração, caro. Anunciou ela que seu pai pretendia casá-los, a fim de selar paz duradoura com os Reinos mais distantes.
— Mordam-me as mandíbulas de Farlun! Qual a sua reação, então, se perguntar me permite?
— Levantei-me. Levantei em meus ombros a mágoa toda dos planetas. Não sei ao certo a continuidade; imagino-me correndo escadaria abaixo, sem nem mesmo despedir-me de meu lírio infante. O ímpeto espetou meu julgamento; apenas desci, e desci.
— Deixou-a no grande farol, simplesmente. Forneceu o destino oportunidades outras de tratar do impensado?
— Jamais saberei, desconfio. Recordo-me, porém, muito bem do que se sucedeu. Naquele mesmo dia, recebi em meu quarto um mensageiro de cá nossas terras. Lembra-se do assombroso Mal, espalhado por todo o Reino há alguns anos? Quando fui procurado na Miraslávia, milhares haviam já morrido por entre os picos gelados de Sirdan. Logo, por muito, faltou aos conterrâneos provisões. Esperança dentre elas - é de se temer.
— Lembro-me. Os bosques de Sirdan figuravam cemitérios putrefatos àqueles tempos. Os sobreviventes dobraram-se em compaixão pelo Eterno, e em respeito à Família Real... Agora recordo-me: o amigo voltou de uma de suas viagens bem ao findar da temporada, não é mesmo?
— O que podem as moléstias fazer dos seres vivos? Reduzem-nos a pó, arrisco. Pois retornei. A águia setentrional zarpou na mesma noite, à luz do apressado luar. As falésias, pesarosas, desaprovavam a mim e a minha tripulação - é claro. O pranto transcendental tomava ainda as densas nuvens do céu miraslaviano. Admito que aquela acinzentada atmosfera rende-me desconforto até hoje, meu amigo.
— Assim fora a despedida sua da Miraslávia. Se antes a excentricidade daquele Sol resplandecia ao alto dos montes, a névoa preencheu última os vingativos céus austrais. Vive o Navegante das Falésias as aventuranças; sorri-lhe Julia, com suas ondas douradas e cristais verde-claros!

domingo, 2 de junho de 2013

Julia (V)

Aos braços do Mirus, a aquarela rosada do ocaso solar acalentava o capitão do "Águia do Norte". O tempo circunscrevia os companheiros, completando tímidas voltas. Os sapos coaxavam seus pesares, enquanto os grilos preparavam com esmero a trilha sonora da noite. Às costas do Navegante, as águas do Lago - por sua vez - brincavam com o vento adocicado do crepúsculo. O homem, ainda sorrindo, afagou a nuca recém-contraída. Seu corpo, afinal, respondia ao estímulo lancinante de um destino mágico, todavia incerto. Aterradora era a constatação de tal sensação persistir ante as brumas da memória. Bem como muito do que a jovem princesa havia lhe proporcionado, saberia o sirdanês.

Naquela ocasião, o Navegante entendeu o que há muito ouvira em suas viagens ao Leste: bastava um momento para que se fosse amado por toda a vida. Anos, pois, jamais fariam o mesmo trabalho da transitoriedade de milésimos de segundo. Um momento, por toda uma vida - eis a verdade que na alma do marinheiro se instalava. Para os companheiros, tamanho axioma acompanhava-se do perfume de Julia. Também, o aroma das maçãs cozidas misturava-se à tal essência, de modo a formar uma explosão de alegria que abraçava as narinas do Navegante. O timoneiro, em sua breve epifania, logo percebeu o quão aprazíveis eram as notas liliáceas associadas às pomáceas. Desconfiava que até mesmo o povo das Ilhas havia subestimado a combinação para uso em seus doces perfumes.

Trajada de violeta, Julia fazia bom uso de sua beleza. O lírio infante abria suas pétalas de seda ao capitão - revelando um vestido longo, de corpete branco e saias adornadas com bordados em prata. Vestia ela luvas longas, que, púrpuras e sedosas, alcançavam as mangas alvas de suas roupas. Seus cabelos dourados estavam trançados com pequenos opalas vermelhos. Assim o trigo balouçava à companhia da flor e das pedras preciosas - e o encanto do Navegante só fazia aumentar.

Ele, por sua vez, portava uma grosseira túnica de algodão azul-escuro, com calças e botas de couro negro. Acostumado ao cotidiano do mar, o homem trazia ao corpo seu fiel, porém envelhecido manto - algo do qual agora se envergonhava. Ao menos deveria, pensou, ter considerado um barbear adequado pela manhã. Optara, contudo, por um mero e insuficiente aparar dos pelos faciais.

O marinheiro tratou de estender sua capa na grama, próximo à grande aveleira. Chegando a Princesa ao seu encontro, ele convidou-a a sentar-se - de modo a desfrutarem do anoitecer. De onde estavam - às costas o caminho que levava à cidade - o Lago parecia estender-se eternamente, até depositar suas águas no Etéreo. No horizonte, avistava-se os verdes montes do Grande Reino. Lá o Sol terminava sua jornada rumo o sono rotineiro, trazendo do lado oposto o luar e as primeiras estrelas.

Tão logo o chão apoiou-lhes os corpos, a torta foi repartida entre as frígidas montanhas hircinas e o luzir de uma nova aurora. Sirdan e a Miraslávia reuniam-se mais uma vez - como nos tempos de Jonas, o Interpelador. Pudessem os ancestrais desfrutar das maçãs de Julia; discórdias decerto seriam evitadas. A jovem, tiradas as luvas, lambuzava os dedos com o doce - estampando ainda um leve sorriso. A paz de espírito transbordava dos olhos da moça. O capitão então perguntou a si mesmo se era apenas sobre aquilo que o amor versava. De toda a simplicidade do sentimento parecia se compor a ardência de cada um dos momentos dos enamorados.

Gostaria o capitão do "Águia do Norte" de que aquele sabor jamais se esvaísse de sua mente. Contudo, a torta de maçãs miraslavianas não podia fazer perdurar seu estímulo nobre ao paladar. Os companheiros, desprovidos então do desjejum, deitaram-se na grama fresca. Próximos a eles, os galhos cheios da aveleira confundiam-se com o céu recém-estrelado, num dançar de folhas fervoroso. O movimento, pensou o timoneiro, era feito com toda a graciosidade que à Grande Mãe cabia. Mais ao alto, as pequenas avelãs quase urgiam em seu frenesi um mergulho no grande Lago.

Após um momento de silêncio, Julia apontou uma larga constelação. Curiosamente, o Navegante - acostumado a se deixar conduzir pelo Universo - a desconhecia. Sua companheira disse-lhe que aquela era a Coroa de Mirus, cuja aparição era presenciada apenas ao Sul. Rei Mirus; todo o Mundo ao menos uma vez ouvira falar de suas aventuranças. Lendas e lendas - inverossímeis, acreditava. Assim a Princesa o confirmou, ao passar a contar a história de tempos longínquos. Ela conhecera Mirus através do contato com exímios trovadores do Leuceu e por vezes sonhava que fazia parte da corte do Unificador.

A fúria das tribos saltava das palavras de Julia. Os antigos corriam de um lado ao outro - a vida pulsando-lhes nas artérias. Empunhavam os guerreiros suas longas lanças; as pontas das armas mergulhadas em sangue. O povo curvava-se ante o punho de ouro de Mirus - e os que se negassem a tal eram dilacerados. Chefes aviltantes caíam, e um vasto império era erigido sobre o calor da vitória. As falésias foram conquistadas; as campinas, invadidas; os montes, envoltos em chamas. As estrelas, como se reconstruindo a narrativa, refletiam o nascer miraslaviano em seu luzir. O Navegante podia quase escutar um brado de guerra, sentindo que o próprio Rei de Fogo - imerso no firmamento - o convidava à batalha. O coração do timoneiro batia em compasso aos fúnebres tambores marciais, e a constelação dançava em ironia.

Logo viera a tristeza. As conquistas do Rei pareceram em areia desmoronar. O rubor fugira-lhe às faces; a traição sorria-lhe, afundando-o na própria mágoa. Seu único amigo era o canto do rouxinol, e assim fora até o leito de morte. O pranto cingiu a vívida Coroa, e abençoadas através dos tempos foram as águas aos pés dos companheiros. Tamanha alegria das pessoas que ali residiam foi construída através do sangue e sofrimento - o que afligia o sirdanês. Deveras a bondade se fazia inexistente sem as trevas, pensou.

Os amantes viraram-se, um fitando o outro à luz do luar. Saudoso daquele verde-claro era o homem do mar. Um verde inigualável - eterno companheiro do "Águia do Norte". Os olhos de Julia tudo curavam. O tempo, neles imerso, não se atrevia a continuar a jornada, pois reconhecia a honra de sua singularidade. O Navegante foi feliz naqueles dias - tinha certeza. Breves e encantados dias com a Princesa... Saudades.